O quanto nos resta
Meu filho amado, hoje me está doendo um assunto delicado.
Você é um bebê lindo, macio, feliz. Você ri com os olhos, especialmente quando me vê e eu aproveito essa fase como se casa dia fosse o último dia. E então, eu refleti.
No meu último dia, na melhor das hipóteses, você pode ser que você tenha a minha idade e isso é pouco.
Eu vou te dar breve cinquenta anos da minha existência, se pá. Enquanto beijava seus pezinhos pequenos, chorei a brevidade da existência e a relatividade da vida. Da terra à terra, sim, mas quando a gente tem filhos, a gente para de estar preparados para a terra. Eu não quero morrer. Eu não posso morrer. Nunca.
Eu preciso beijar seus pezinhos. Cheirar seu pescoço. Dormir com você no colo. Quero te levar na escola, no Japão, no altar. Quero ver você se formar.
O amor que sinto por você está doendo demais... Porque me sinto velha demais...(minha alma não; essa pensa que eu tenho eternos vinte e três).
Te amo. Te amo. Te amo.
Demora bastante pra crescer. Me acorda o tempo que precisar. Segura a ampulheta de lado, pra gente se curtir um pouco mais e deixar a sombra desse meu medo para trás.
Você ainda precisa tocar o mar.
Beber água.
Crescer os dentinhos.
Você ainda precisa tudo.
E eu quero estar aqui pra tudo. Eu nasci pra te esperar...
Dorme um pouquinho, enquanto escrevo... Mas acorda logo pra eu te chamegar.
As minhas madrugadas são melhores com você, amorzinho.
Te amo demais.
Mamãe
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