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O quanto nos resta

Meu filho amado, hoje me está doendo um assunto delicado.  Você é um bebê lindo, macio, feliz. Você ri com os olhos, especialmente quando me vê e eu aproveito essa fase como se casa dia fosse o último dia. E então, eu refleti. No meu último dia, na melhor das hipóteses, você pode ser que você tenha a minha idade e isso é pouco.  Eu vou te dar breve cinquenta anos da minha existência, se pá. Enquanto beijava seus pezinhos pequenos, chorei a brevidade da existência e a relatividade da vida. Da terra à terra, sim, mas quando a gente tem filhos, a gente para de estar preparados para a terra. Eu não quero morrer. Eu não posso morrer. Nunca.  Eu preciso beijar seus pezinhos. Cheirar seu pescoço. Dormir com você no colo. Quero te levar na escola, no Japão, no altar. Quero ver você se formar.  O amor que sinto por você está doendo demais... Porque me sinto velha demais...(minha alma não; essa pensa que eu tenho eternos vinte e três).  Te amo. Te amo. Te amo.  Demor...

Enquanto você dorme

 Eu escrevo. Sua avó Zizi foi comprar pão com Maia, que estava fazendo birras homéricas antes de sair de casa, porque queria colocar a meia-calça de gatinho, depois porque queria o tênis que pisca.  Maia é assim. Birrenta. Dona da casa e das pessoas. Está naquela fase em que acha que tudo e todos são propriedade dela; com a sua chegada, essa sensação se acirrou e ela ficou no limite (e tem trazido todos nós para o limite também).  Você não ajuda muito: dorme picadinho, passa as noites querendo colo e aconchego e, durante o dia, na maioria das  vezes, tira sonecas mais curtas que longas _ o que faz com que eu, sua ilustríssima mamãe, não consiga dormir um sono REM nunca.  Que engraçado: eu sabia que seria assim e, mesmo assim, quando você chegou, encheu minha vida de alegria.  Você é um bebê lindo. Muito, muito bonito mesmo. E risonho. Parece feliz, na maioria do tempo, como se já conhecesse o lirismo e as histórias boas que esse mundo vai lhe contar. Fico s...

Três meses, sete quilos e meio

 Você está grande. Bem grande. As bochechas e o olhar redondo me fascinam. Não só a mim, mas também.  Todo mundo é apaixonado por você, a começar por sua irmã Maia. Ela é a primeira a te dar beijos de bom dia de manhã e a mostrar você para todos os colegas que encontra pelo caminho. Ela também sente um pouquinho de ciúmes e tenta fazer uma experiência ou outra contigo, como antes de ontem mesmo, quando ela enfiou o dedão do pé na sua boca, para você fazer de chupeta (tive de intervir nessa, dando um brigueiro arrumado com ela).  Ah, Max. Seus olhinhos azuis e a cabeçona carequinha são tudo que eu sonhei pra mim. Que bebezão lindo você é. E doce. E feliz.  Suas risadas são a luz do dia... De longe, as coisas mais gostosas que escuto ao te colocar no colo. Você fica assim, olhando para mim, bem no fundo dos meus olhos, por longos minutos....e rindo... e olhando... e rindo... E já está balbuciando alguns sons... e tentando  ter controle das mãos... e batendo as per...

Te gesto, te espero

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 Terceiro filho, primeiro homem, te trago no ventre sem ânsia.  Estamos caminhando para as 38 semanas e sinto você se espalhar por dentro, como se fizesse questão de invadir cada órgão, até ficar fixado nas paredes viscerais de mim (não se preocupe: já está). Pode ser que, em uma década e meia ou duas, você chegue a essas cartas. Pode ser que nunca as leia (vai saber). Mas eu preciso falar.  Preciso, porque nunca imaginei que você viria. Porque já me sentia oca, desde antes de Maia. Porque a virada dos meus quarenta anos mexeu com os alicerces da vida que eu achava que tinha.  Que coisa. Quando engravidei de Alice, sabia que era um menino. Que saber torto! Descobri que a única coisa que eu achava que sabia era nada... e veio uma mocinha toda cor de  rosa, de batom nos lábios e tudo. Paralisei.  Quando veio Maia, torci para ser um menino, para que eu pudesse ter a chance de ser mãe de um de cada. Novamente, uma menina me surpreendeu, com uma vivacidade e fof...