Te gesto, te espero



 Terceiro filho, primeiro homem, te trago no ventre sem ânsia. 

Estamos caminhando para as 38 semanas e sinto você se espalhar por dentro, como se fizesse questão de invadir cada órgão, até ficar fixado nas paredes viscerais de mim (não se preocupe: já está).

Pode ser que, em uma década e meia ou duas, você chegue a essas cartas. Pode ser que nunca as leia (vai saber). Mas eu preciso falar. 

Preciso, porque nunca imaginei que você viria. Porque já me sentia oca, desde antes de Maia. Porque a virada dos meus quarenta anos mexeu com os alicerces da vida que eu achava que tinha. 

Que coisa.

Quando engravidei de Alice, sabia que era um menino. Que saber torto! Descobri que a única coisa que eu achava que sabia era nada... e veio uma mocinha toda cor de  rosa, de batom nos lábios e tudo.

Paralisei. 

Quando veio Maia, torci para ser um menino, para que eu pudesse ter a chance de ser mãe de um de cada. Novamente, uma menina me surpreendeu, com uma vivacidade e fofurice sem iguais! Eu continuava sem saber de quase nada nesse mundo; só que amava minhas filhas e que por elas, daria tudo que fosse possível.

Cheguei aos 45 anos. Sabia que a fábrica de bebês estava encerrada. Sabia que a minha idade não me permitiria outras tentativas. Estava já tranquila quanto a isso; o meu bebê menino iria ficar para uma próxima encarnação, caso houvesse. E tudo bem.

Mas os enjôos vieram. 

E, com eles, outra chance. 

Não ousei dizer que seria um menino, dessa vez. Esperei até a ultrassom dar a certeza de um feto único, saudável, e do sexo masculino. 

Tremi nas bases. Não tinha parado para pensar na concretização da terceira maternidade. Não tinha parado para pensar na concretização de ser mãe de menino, finalmente. 

Dizem que os meninos são mais ligados às mães. Não sei como seria isso: as minhas meninas são coladas em mim como carrapatinhos que eu faço questão de cevar e manter por perto. Amo-as infinitamente, como já amo você, cá dentro, grudado também.

A cada noite, diminui o espaço entre nosso encontro de olhos. 

A cada manhã, agradeço por ter tido mais uma noite tranquila. 

Vem no seu tempo, meu amor. As malas da maternidade já estão prontas e dentro do carro. Seu berço está ao lado da minha cama. Suas irmãs fazem conjecturas sobre sua aparência. Seu pai e eu, temendo o cansaço, fazemos planos mais austeros e silenciosos, por enquanto.

Que bom que você está chegando <3 

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